Nunca pensei que eu seria tão violenta, que puxaria a cortina do banheiro tão violentamente, que calaria teus últimos gritos com as duas mãos, que te abraçaria molhada e ensaguentada, com o chuveiro ligado sobre nós, acariciando de leve seus cabelos e seu pescoço com sangue e água.
Não achei que deixaria suas ultimas lágrimas me atingirem assim.
Não achei que elas se misturariam as minhas.
Não sabia que tinha coragem de arrastar seu corpo por todos os cômodos da casa, deixando partes suas por todo canto, pra me lembrar de você depois.
Te contando a história da sua vida sussurradamente.
Não imaginei que agiria como um psicopata; matando você, fazendo coisas incomuns e depois trancando a casa e indo embora como se ela estivesse vazia.
Não pensei que me mataria um dia.
Nem que esse dia estaria tão próximo assim.
Muito menos que já tivesse acontecido, e eu nem tivesse notado.
Meu corpo fica tão mais bonito assim, visto daqui de onde eu estou.
De fora dele, observando-o roxear, sentindo-o endurecer ainda encharcado com um sangue de cor bonita.
De longe, fugindo daqui covardemente, como o lixo que eu sempre fui.
Sonhando desde pequena em ser qualquer coisa, menos o que eu estava sendo.
Depois de um tempo você aprende a sutil diferença entre dar as mãos e acorrentar uma alma, você aprende que amar não significa apoiar-se e companhia não quer dizer segurança; você começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas; você começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e os olhos adiante com a graça de um jovem, não a tristeza de uma criança; você aprende a construir todas as estradas hoje, porque o terreno de amanhã é demasiado incerto para planos e o futuro tem o hábito de cair em pleno vôo.
Depois de um tempo você aprende que até mesmo a luz do sol queima se você a tiver demais, então você se planta em seu próprio jardim e enfeita a própria alma ao invés de esperar que alguém lhe traga flores; você aprende que você realmente pode resistir, que você realmente é forte, você realmente tem valor; você aprende, a cada adeus uma nova lição.
Um dia você acorda e descobre que tudo está diferente, que tudo mudou. Você descobre que seu coração já não bate tão depressa, descobre que o motivo da insônia mudou, descobre que já não se preocupa mais. Descobre que aqueles problemas acabaram, descobre que as lágrimas também vêm com a felicidade. Um dia você acorda e deseja ter tudo aquilo de novo, ao menos uma vez. Um dia você acorda e descobre que esqueceu, e por incrível que pareça, você continua forte e inteira. E, então, você descobre que não precisa de nenhum esforço pra sorrir.
Acordei estranha, com uma sensação morta dentro de mim, era novamente meu buraco. Ele acordou aberto e isso me causava "dor". Eu não podia pensar em nenhum motivo pra aquilo, ou talvez, no fundo eu sabia. Na verdade, nem no fundo.. eu sei o que é isso. Esse total desconforto, essa vontade de chorar, essa nostalgia sem sentido algum, eu sei exatamente o que é tudo isso. E agora, pelo fato de saber, machuca mais ainda. Eu pensei que chegaria em um certo ponto em que isso não me incomodaria mais, mas está demorando mais do que eu esperava.

 Aquele mesmo sonho era a única coisa que ecoava em minha mente durante dois longos e árduos meses. Meses nos quais eu não consegui pregar os meus malditos olhos por mais de duas horas por noite. Era sempre assim; Tentar dormir as 3 horas da madrugada, e acordar as 5. As vezes mais cedo, as vezes mais tarde. Mas era tempovo bastante para poder sonhar. Sonhos maiss bem denominados pesadelos. Aquele mesmo sonho. Aquele mesmo rosto. Aquele mesmo nome... Foi assim na última noite. Até eu começar a não sentir mais. Simplesmente deixar de lado. Deixar pra lá. Remover isso de meus pensamentos.

 Eram aproximadamente 8 horas de um sábado frio. Frio como o gelo. Eu estava, como sempre, de pijamas. Tomava café aos montes, tentando me manter acordada por não ter dormido quase nada. O sono não era mais aconchegante e tentador, agora ele parecia um abismo no qual eu não gostaria de cair. O cansaço me puxava para ele e eu ia na direção contrária com uma quantidade absurda de café.

 Levantei-me do sofá, desliguei a TV e voltei para o quarto depois de algumas horas dessa luta incessante. Sentia como se eu estivesse perdida no tempo, quase como se o tempo em sí não existisse mais, marcado apenas pelo sol e a lua que eu bloqueava com as minhas cortinas. Eu tinha a necessidade constante de procurar algo, como se eu tivesse perdido uma parte de mim. Num tentativa fadada à falhas eu a bri o guarda-roupa e, dessa vez, diferente de todos os outros dias nos quais eu fiz exatamente a mesma coisa,  algo pareceu chamar a minha atenção. Uma daquelas caixas aonde eu sempre guardos as coisas pequenas pras quais ninguém liga. Uma das quais eu não olhava a muito tempo. Uma caixa de lembranças, cartas e peças dos meus dias passados. Memórias que não me traziam os mesmos sentimentos de antes.

 Dentre elas uma foto de uma quarta-feira como outra qualquer na qual eu te encontrei. O seu sorriso, como sempre, estava lindo e o seu braço estava passado por cima dos meus ombros em uma espécie de semi-abraço. O dia estava quente, eu quase podia sentir só de olhar pra foto, o sol iluminava nossos rostos e todos pareciam felizes. 

 Sem muita cerimônia coloquei a foto de volta na caixa. Continuei olhando certos items que haviam por lá, um papel de bombom, presente que você me dera logo quando nos conhecemos. Você disse que não tinha dinheiro para nada mais caro e eu sorri, aceitei aquilo com o meu coração. Eu sentia uma certa dor ao me lembrar dessas coisas. 

 No topo da pilha de cartas presas com um elastico eu reconheci a ultima carta que você escreveu para mim, não muito tempo atrás. Eu perdi a conta de quantas vezes eu a li, mas mesmo assim, eu a li uma ultima vez, pela primeira vez em voz alta. Minha voz se espalhando pelo cômodo inteiro. fazendo uma sensação gelada se apoderar de mim:

 "Por muitas vezes pensei que você era realmente a pessoa que eu procurei por toda a minha vida. Infantil, né? Como eu pude achar que você seria minha para sempre? Fui um tolo, talvez louco. Não sinto mais meu coração bater acelerado quando nos beijamos. Não sinto mais segurança quando seguro suas mãos. Não sinto mais carinho quando estamos juntos. Os beijos, que antes eram promessas, viraram costume, quase uma obrigação. As mãos dadas, que antes eram quentes como o sol, agora são frias como o inverno. As coisas, que nos transformavam em uma só pessoa, tornaram-se maçantes. Peço que me perdoe, por não te amar como a quatro meses atrás. Não é escolha minha. Eu só não sinto mais. Não sinto mais você como era antes, como você costumava ser, como você agia... Me desculpe, eu só quero que eu tenha realmente alguém ao meu lado. Uma presença e não apenas um corpo.
Com carinho, D."

 Precisei rir. Uma risada alta e irônica... 'eu só não sinto mais'... Eu entendo agora. Apesar de antes essas palavras terem cortado o meu coração.
Bem, as palavras estão com um tipo de aversão natural à mim ultimamente. Também, só as uso pra consolar meus instintos egoístas e as partes erradas da minha vida. Elas me serviam tão bem quando tudo estava claro. Mas eu mesma pus um resquício de neblina sobre algumas coisas. Acho que finalmente consegui retirá-lo, e consegui voltar a escrever.
Acho que superei as barreiras, aquelas que eu mesma coloquei à minha frente. Mas meu pensamento exagerado no futuro ainda persiste, e o frio chega trazendo à tona toda a minha solidão nesse momento, todos os medos que eu nunca venci. Toda aquela nostalgia me atinge por causa desse cheiro de terra molhada.
Faz tempo que eu sinto que não valhi a pena, que nem mesmo a mais insignificante das coisas eu fui naqueles dias tão chuvosos de tanto tempo atrás.
Obrigada, por me fazer perceber que somente eu poderia me devolver as sensações e a sensibilidade que eu tinha perdido. Algumas coisas foram mudadas em mim pra sempre, e todas em um sentido bom e rentável.

Era terça-feira de madrugada, quase quatro e meia da manhã quando eu percebi que fazia dois dias que nem fechava os olhos pra dormir, havia passado as férias todas dentro de casa e quando percebi isso me decepcionei comigo, porém estava cansada demais pra sair de casa agora. Deitei-me na cama gelada e dormi. Mas dormi num sono perturbado, fui acometida por pesadelos e sonhos de todos os tipos, não me lembro da maioria deles. Na verdade, lembro-me apenas de um, e é só ele que importa:
Estava muito frio e o vento gelado fazia minha pele queimar, cada movimento que eu fazia parecia me rasgar, mesmo assim continuei andando, não podia parar ali, no meio da neve, podia? Procurei um lugar no qual eu pudesse ficar, um lugar quente. Mas quanto mais eu andava mais difícil parecia encontrar qualquer coisa, tudo que eu via era o chão coberto com aquele espesso lençol de neve, mesmo assim não desisti e continuei andando. Acabei perdendo a noção do tempo, a sola dos meus pés descalços havia perdido toda a sensibilidade e o frio era tanto que comecei a perder a consciência aos poucos. Quando achei que não havia mais como sobreviver vi de longe uma luz amarelada. Uma luz que parecia tão aconchegante, quente, como eu queria estar perto daquela luz. Tentei chamar, gritar, mas não havia voz, caí de joelhos na neve e tentei me levantar, mas não tinha mais forças. Eu desisti de viver, deixei meu rosto tocar a neve gelada e fechei os olhos. Não me importava com o que ia acontecer, eu não podia mais suportar aquele frio. Logo perdi a consciência. Lembro-me de acordar em um lugar iluminado, com roupas secas e sob cobertores quentes. Levantei a cabeça para olhar em volta sentada ao meu lado estava uma senhora de cabelos tão brancos quanto a neve que quase me matara. O mais surpreendente sobre ela era aquele sorriso, que me derreteu, eu sabia que, por causa dela não havia morrido. Agradeci a ela e perguntei por que ela havia me salvado se nem me conhecia. E ela me disse que não podia me deixar morrer. Eu não entendia por que aquela mulher era tão gentil... Todas as pessoas que conheci até hoje não foram gentis assim no primeiro momento. Todas as pessoas desconfiariam de alguém com quem nunca conversou, e sob nenhuma circunstancia levaria tal pessoa para dentro de casa, mas aquela senhora me tirou do frio e cuidou de mim com carinho.
Penso que as pessoas deveriam ser um pouco mais como ela.
...Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.

Fiquei chocada quando percebi que eu não via mais a magia nas coisas como já havia visto antes.
Lembro-me nos tempos em que a grama se descoloria quando decepcionava-se ao ser pisoteada
pelas pessoas grandes, ou das folhas das árvores que caiam porque a árvore estava ficando velhinha e pronta para ir para um lugar melhor e, lembro-me principalmente quando me senti a pior pessoa do mundo ao pensar em como ficariam tristes e decepcionadas as batata doces ao saberem que eu não gostava de seu sabor, mesmo elas não tendo culpa de serem menos saborosas que as batatas comuns.
Mas ninguém me avisou que no mundo de gente grande, os vegetais não possuem sentimentos, que árvores não morrem de velhice e que gramas não se descolorem por decepção. Talvez a suave ignorância das crianças não fosse tão ruim quanto parecia no momento em que os adultos diziam "um dia você vai entender".
Por isso invejo as crianças que decidiram e puderam manter-se crianças. Afinal, devo muito do que sou a uma delas, o pequeno príncipe, que sou eternamente grata por ter me cativado eternamente e ter me ensinado tanto sobre as historias de raposas, rosas e asteróides, sobre o pouco que sei quanto a visão e o mundo gélido das pessoas grandes, que, graças a ele terei bastante cuidado e paciência.
Obrigada meu bem, eternamente obrigada por tudo o que você me ensinou e, não se preocupe pois sua amiga jamais esquecerá você.

Preciso contar algo, melhor, preciso culpar a mim mesma por algo... Adquiri um hábito terrível, e sabe, acabei percebendo isso um pouco tarde. Já estou viciada. Toda vez que sinto falta de conversar com alguém, venho aqui, isso acontece principalmente quando estou cheia de perguntas existenciais, neuroses, ou até mesmo cheia de vazio. Cada vez mais percebo o quanto é difícil conversar com as pessoas sobre determinados assuntos. Não que eu seja alguém intelectual, não é nada disso, é que tenho tantas inquietações que muitas vezes não consigo simplesmente sentar em um lugar qualquer com pessoas e falar besteira… Tenho uma necessidade incontrolável de tentar descobrir quem eu sou. Vivo a margem de tentar descobrir quais os meus propósitos, o que realmente eu gosto, o que me incomoda, o que não me faz diferença ou não. Sou totalmente inconstante. Por que estamos aqui se um dia partiremos? Vejo as pessoas, a grande maioria, num ir e vir frenético não dando a mínima para nada disso. Elas simplesmente vivem. Eu não consigo ser assim... Não estou dizendo que elas estejam erradas. Na verdade, muitas vezes, acredito que eu esteja errada.
O tempo que gasto tentando responder essas questões talvez pudesse ser usado para algo mais produtivo. Não sei nem ao menos se já conheci o amor, costumo falar que nunca amei ninguém verdadeiramente. No instante seguinte chego à conclusão que já amei e muito, de várias formas, afinal de contas existem vários tipos de amor.
Existe um sentido para tudo ou precisamos dar sentido a tudo? Muitas vezes tento me afastar de mim, reconheço que sou minha maior e pior inimiga! Faz um bom tempo que não tenho conseguido fazer o exercício de sair de mim mesma para poder me observar. Acho que tenho medo do que posso enxergar. Gostaria de diminuir essa vontade de tentar entender o sentido de tudo, mas ao mesmo tempo, gostaria de ter por perto mais pessoas interessadas em descobrir o porque de tudo. E assim vou seguindo, eu e minhas contradições….
como eu gostaria de poder dizer isso um dia…..

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.” - Clarice Lispector
Buffy: Isso costuma ficar fácil?
Giles: Você quer dizer a vida?
Buffy: É. Costuma ficar fácil?
Giles: O que você quer que eu lhe diga?
Buffy: Minta para mim.
Giles: Sim, é terrivelmente simples. Os homens bons são sempre leais e verdadeiros, os homens maus são facilmente destinguidos por seus chifres pontudos ou chapéus pretos, e - uh - nós sempre os derrotamos e salvamos o dia. Ninguém nunca morre, e todo mundo vive feliz para sempre depois.
Buffy: Mentiroso.
[...]
E assim, fiquei olhando pra ela, de longe. Aquela menina parecia se tornar tão adulta com o vento frio batendo em seu rosto enquanto ela observava as ondas se formando.
Em cima daquela prancha ela não precisava de mais nada, e isso me dava um misto de ciúme e orgulho. A imensidão do mar parecia deixá-la tão distante de mim, e ao mesmo tempo, a deixava tão solitária.A união entre a menina e o mar era perfeita, e eu, sentado na praia ficava observando tudo isso.
O Sol ,encoberto pelas nuvens de outono, ia ficando cada vez mais fraco, o dia ia virando noite num pôr-do-sol sem graça e os ventos ficavam cada vez mais fortes e frios.E ainda sim ela continuava a domar as ondas e eu contemplando tudo isso com muito gosto.
Era como um vício, eu não conseguia mais desviar minha atenção do que estava vendo. A minha garota envolvida com algo que, com certeza, era mais necessário a ela do que eu.
E quando a claridade já era pouca, e não era mais possível continuar dentro do mar, ela saiu, veio andando devagar na minha direção com a prancha debaixo do braço. Ela olhava para trás enquanto caminhava, como se alguém estivesse a chamando.
Chegou perto de onde eu estava, olhou para a minha cara de satisfeito e disse:
- Olhando você lá do mar, dá um ciúme da areia, parece que você se dá melhor com ela do que comigo, pelo menos ela não fica falando bobeira pra você e te deixa sossegado.
Eu ri, puxei-a pra perto de mim, beijei-lhe o rosto.E ficamos ali, sentados, sentindo um frio quase bom, durante muito tempo.Só eu e ela, o mar e a areia.
Há muitas razões para você ter medo de tentar, muitas razões para falhar, muitas razões para desistir, muitas razões para voltar à sua concha e esperar a vida se esgotar. Aos poucos. Jogando fora um dia de cada vez.
Sim. Há muitas razões para acreditar naquela voz, dentro da sua cabeça, que tenta anular você, corromper seu potencial e convencer você de que é um desperdício tentar dar o próximo passo. Essa voz diz: "Para que escrever a própria história?
Assista TV, e viva a história de outros, coma mais e não se exercite, para destruir sua principal máquina de mudar seu mundo; esqueça o amor, anule-se." Estas são as mensagens que tentam derrubar você.
Há muitas razões para desistir. Todas, absolutamente todas, falsas. Os limites estão em você, não em regras criadas por outros. Nossa sociedade é dominada pela absurda "lei das médias".
Se a maioria não consegue, tentam fazer com que você acredite que jamais conseguirá. Aleijadinho não acreditava na voz interior que dizia, com toda a lógica do mundo, que “aleijados não podem ser escultores”. Era lógico, mas era falso.
Santos Dumont não acreditou nos compatriotas que insistiam em dizer que o homem não poderia voar com um veículo mais pesado que o ar. Era lógico, mas era falso. O mundo é plano, diziam aos navegadores. Era lógico, mas era falso. Há muitas coisas nas quais você acredita, com lógica, mas que são absolutamente falsas.
É fácil inventar uma razão, um motivo aparentemente lógico, para qualquer coisa. Mas sua vida pode ser muito mais do que um amontoado de desculpas lógicas. Sua vida é muito mais do que qualquer razão para desistir de um sonho.
Sua vida é muito mais do que seu passado ruim, suas experiências de dor e seus medos ancestrais. Sua vida é tudo o que ainda virá. Não importam os limites do seu passado, eles não existem mais. Seu futuro pode ser tudo o que você desejar.
Escolha os companheiros de viagem... e vá. Por isso, toda vez que "escutar uma voz dentro de você dizendo `Você não é um pintor`, então pinte sem parar, de todos os modos possíveis, e aquela voz será silenciada.", como afirmou Van Gogh, um dos maiores pintores da história. Substitua a palavra "pintor" por engenheiro, jornalista, arquiteto, policial, mãe, professor, motorista, cantor, ator, escritor.... ou o que você desejar. E acredite nisso: sua mente e seu corpo são obrigados a seguirem as suas decisões, suas ações e suas crenças.
O despertar da mente começa bem antes do abrir dos olhos. Naquele sonho. Naquele pesadelo. É tudo perfeito demais, ou feito dos seus maiores medos.Você percebe: "Isso não é real, é bom demais pra ser verdade, é terrivelmente amedrontador ter tudo assim, isso é um sonho".
Começa um turbilhão de perguntas, aquela imagem que só existe na sua cabeça perde a forma. Começa a cair, descer. Descendo de volta ao real. Ao mundo real, essa esfera em que vivemos onde distâncias são maiores que desejos, onde a liberdade é limitada por incertezas e hipocrisias.
Seria mesmo esse o despertar? Acho que o real é só um pesadelo. Onde a verdade não é verdade. Onde a verdade é o que vemos, não o que sentimos. O mundo, depois que acordamos, parece mais tudo mais imaginário que antes. Atitudes moldadas por vergonha, buscas por algo que não teriam importância alguma... Somos todos tão fúteis assim? Tão tolos ao ponto de acreditar que a vida realmente está dentro de faculdades e escolas com contas e cotas, dentro de escritórios, de laboratórios... A vida está dentro de nós, por nosso corpo. Está nos nossos pés, que nos levam à paisagens inacreditáveis, está nas cicatrizes de infância, nas cicatrizes mais recentes também. A vida está não está no sonho, está em realizá-los. A verdade não está nas palavras, está em quem as escreve. Vida, verdade e palavra. Quase iguais, tão diferentes. Pelo menos pra mim...
Há quem diga que a distância atrapalha, e que por causa dela o amor não existe, mais é por causa da distância que os beijos começam a ser sonhados e os abraços tão desejados. Os encontros tornam-se desejos. O coração passa a ser um só. A solidão pode até bater em sua porta, uma ou duas vezes.. mais a certeza de ter um ao outro, acaba com qualquer solidão. Os planos começam a ser feitos, com a certeza de que serão cumpridos. E pensar que estão cada um em um canto do mundo. É como se estivessem juntos, o tempo inteiro. As palavras valem muito, valem tudo, são ditas, com a certeza da resposta. A felicidade é grande, mais não é medida, por dias nem anos, mas por instantes. Podem haver milhões e milhões de kms mais o amor consegue ser um bilhão de vezes maior. A distância é algo que só quem consegue superar, entende? O valor de uma foto, ou de uma carta. Só quem vive sabe o valor de um verdadeiro amor.
Around here, however, we don't
look backwards for very long.
We keep moving forward, opening up new doors and
doing new things, because we're curious...
and curiosity keeps leading us down new paths.
Walt Disney ♥
Como eu temo viver assim um momento tão triste! Penso agora: Desde o instante em que te conheci assaltam-me o coração todas as apreensões, todos os temores. Temo perder-te para sempre, temo ficar longe de ti. Será a tristeza a sombra do amor? Apenas contento-me com este momento, efêmero no que dura, mas finito.
Pior seria de você fosse o Sol e eu a Lua.
Mas agora, é minha vez de mostrar-lhe como esse jogo de fingimentos tem por vezes, fins desastrosos. Se por um lado evitas, por falso pudor, mostrar o real desejo, por outro, pode perder o equilibrio nessa corda bamba e cair na rede da solidão.
"Frequentemente dois amantes se deixam seduzir um pelo outro por qualidades que não possuem, e separam-se reconhecendo defeitos que também não existem."
Era uma tarde vazia, como todas as outras, e eu me vi ali, sentada naquele mesmo banco de um ano atrás. Revirando as revistas expostas em cima de uma mesa suja e gasta, a procura de algo que absorvesse as minhas lembranças. Tanto tempo tinha se passado, mas dentro de mim, nada tinha mudado, por mais que eu negasse tal coisa. Parecia que bem no fundo, eu não queria esquecer, queria viver tudo aquilo de novo, ser feliz com ele de novo. Queria poder ver seus olhos brilhando ao me verem acordar, queria ser o motivo dos sorrisos e das risadas mais gostosas que já ouvi na vida. Sabia que queria estar ao seu lado mais uma vez. Mas quando minhas lembranças iam se tornando cada vez mais vívidas, lembrei que isso só existe dentro de mim. E que talvez, só tenha existido dentro de mim o tempo todo. Talvez, ele esteja melhor, tenha aprendido a viver sem mim, tenha conseguido ser feliz sem mim. Tudo desmorona, se parte em pedaços e me faz ver que eu preciso dele. Talvez ele nem se lembre mais de mim, talvez já tenha conhecido outra pessoa melhor do que eu, talvez até, esteja vivendo feliz ao lado de alguém. Perco-me em pensamentos. Perco a noção do tempo. É melhor levantar, ver se consigo me distrair com algo... Pego minha bolsa, ponho o óculos escuros e vou a caminho da porta, segurando as lembranças com todas as forças, em mim. Ando pelas ruas, sem rumo, esbarrando em todos que passam por mim. Sinto-me perdida mesmo sabendo exatamente o caminho que devo percorrer. E do nada, me vem uma vontade de voltar ao lugar que sempre íamos. Tão aconchegante. Livros e livros, e também um silêncio tão palpável que se podia tocar. Gostava muito por causa disso. Podia ficar admirando aquele menino que me mantinha sóbria. Vi-me dando meia volta e caminhando em direção oposta à que devia ir, me vi voltando ao mesmo lugar, procurando algo que talvez eu nem soubesse o que era, mas não quis admitir pra mim mesma. Foi quando estava quase chegando, que vi o que nunca esperava. Ele. Eu estava um lixo, não queria que ele me visse assim, queria parecer ter superado o nosso fim, do jeito que ele parecia ter superado. Senti meu coração parado por fração de segundos, minhas mãos e pernas tremiam como na primeira vez que o vi. Meu coração retornou a bater em ritmo absolutamente acelerado. Abaixei minha cabeça, não queria olhar em seus olhos por medo de que pudesse ver que não me esqueci de nós, assim como ele esqueceu. Fiquei estática, não sabia o que fazer. Tantos dias pra voltar ali, por que justo hoje nós dois resolvemos voltar ali? Parecia que não devíamos nos falar, mas sei que ele me notou, do mesmo jeito que fez quando nos vimos pela primeira vez. Respirei fundo e fiquei no mesmo lugar, com vontade de correr. Levantei minha cabeça, e olhei ao redor, não tinha como escapar, estamos eu, e ele, ali, no mesmo lugar. Aquele aonde nos vimos comprando o mesmo livro e desde então, nos víamos ligados. Olhei em frente, seus olhos olhavam os meus. Não sei por que, deu uma vontade de fazer aquela mesma pergunta, parecia um filme passando na minha cabeça. Foi tão bom, mas sofremos tanto também. Não teve jeito. Cheguei perto, tentando desviar o olhar e não parecer nervosa. De cabeça baixa, deixei escapar um riso tímido e olhei pra baixo. Os meus tênis sujos contrastavam com o verde intenso daquele all-star dele. "Que bom ele ainda gostar da mesma cor que eu". Ergui minha cabeça o vi tímido como sempre que iria dizer algo 'serio', era incrível como seu péssimo gosto para se vestir continuava igual, aquele mau gosto que me encantava tanto. Ri comigo mesma pela semelhança daquele dia, com o primeiro. Ele olhou pra mim e riu. Ficou sem graça. Devagar, elevei meu olhar em seus olhos verdes que flamejavam timidez e felicidade, sentia saudades daquele brilho intenso que eu vira durante dois anos seguidos. E de repente, suas palavras me atingiram como agulhadas:
- Você vem sempre aqui para tentar me encontrar...?
Na vaga impossibilidade de dizer algo um pouco mais convincente, apenas disse:
- Não!Vim comprar um livro de auto-ajuda, algo do tipo...
De novo, aquele perfume, aquele jeito de me olhar. Tudo, tudo. Deixava-me ali parada, sem saber ao certo o que dizer.
- Agora você lê esse tipo de coisa? Que decadência...
Ele disse e riu. Senti uma felicidade ao ver aquele sorriso maravilhoso se abrindo, mas uma pontada de agonia com suas palavras.
- Não é isso!É difícil viver sozinha e só sair para ir estudar sabia? - Desviei o olhar. E eu inconscientemente estava implorando para que todo esse tempo, não tivesse sido só eu quem viveu sozinha. - e, além disso... Eu tenho lido poucos livros. Tentei mudar de assunto, fugir. Não queria mostrar a ele que sentia sua falta.
- Então pelo jeito só lia porque eu te obrigava. Como vai?
Deu um sorriso em provocação para combinar com suas palavras, era tão divertido pra ele me ver assim...
- Talvez seja verdade, confesso. Ah, estou bem.
Não queria que ele notasse que não estava bem. Camuflei-me no meu sorriso
- E O senhor intelectual, como vai? Ri de mim mesma por falar algo assim, tão idiota. - Não precisa ser tão formal comigo não, eu sou da galera também pooo - deu um riso irônico - To indo poo, facul ta foda, mas eu sou foda, tu bem sabe.
Sorte minha ter uma paciência gigantesca.
- Sempre assim né... - Foi a única coisa que consegui dizer em meio a tanta nostalgia. Acabei rindo disso tudo. Rimos juntos. Pura falsidade de ambos. Nenhum dos dois estava bem como tentavam demonstrar. Quando eu parei de rir, ele continuou. Prestei atenção quando a feição dele se fechou, o espírito dele parecia tão triste quanto o meu.
- Sério... - mudei o tom de voz, queria que ele prestasse atenção em mim, e em mais nada - Você ta bem?
Com os olhos baixos, talvez fosse vontade de falar a verdade que crescia, mas o orgulho não o deixava. Será?
- To, por que, não parece?
Olhei nos fundos dos seus olhos por 2 segundos, e desviei o olhar para os livros em sua mão, pois sabia que se mantivesse meus olhos nos dele, ele perceberia o quão mal eu estava. Mesmo quando brigávamos nos olhávamos com desejo um para o outro, isso parecia ter sumido. -Me faça acreditar que está bem Dei um sorriso de canto. Ele abriu um sorriso igual o do gato de Cheshire. E olhou rapidamente para o relógio em seu pulso.
- Ah droga! Estou sorrindo... Pra você!
Foi a minha vez de sorrir. Mantive o sorriso ate meus olhos encontrarem com os dele e minha feição desmoronar. Pude sentir as lágrimas presas em meu peito e saindo sem querer pelo canto do meu olho. Passei os livros da mão direita pra esquerda. As velhas cicatrizes que minhas tentativas de cozinhar pra ele deixaram no meu antebraço direito ficaram a mostra. E vi olhar dele cair ali por um segundo.
- Você sorri assim porque eu gosto, não porque está bem...
Ri de novo. Mas não conseguia mais conter as lágrimas, elas tomaram conta dos meus olhos e ao poucos, embaçaram minha vista. Não limpei nenhuma, tinha esperanças de que ele, o faria como sempre fez... Não tinha idéia do que tinha que fazer. Não saber chorar às vezes complica muito as coisas. Ele pegou meu braço e me puxou para perto dele e apoiou o queixo em minha cabeça, como costumava fazer a muito tempo atrás. O casaco dele secava minhas lágrimas e mais uma vez, seu peito era o meu leito. Ali, naquele refugio, pude perceber que seu cheiro ainda era aquele de sempre. Aquele cheiro de nostalgia me despertou uma curiosidade: Será que ele ainda tinha o mesmo gosto? Olhei em seus olhos fixamente, mas me faltava coragem para beijá-lo novamente. Suas mãos gélidas afagavam minha nuca e me fizeram lembrar aqueles dias em que mais precisei daquele gesto imensurável. Seus olhos me observavam com uma curiosidade familiar. Não queria tirar meus olhos dos dele, aqueles olhos de cor exótica me hipnotizaram de uma forma que o ar me falhou e fez com que eu não me movesse nenhum centímetro. Os dias que passamos juntos vieram diante dos meus olhos, toda a vontade e desejo que tinha, ardia de novo dentro de mim. Era inevitável. Eu ainda o queria como antes, por mais que negasse. Mas não era só isso que eu queria, esperava do fundo da minha alma não sofrer de novo. Queria desaparecer ali, sem deixar rastro, como se eu nunca tivesse existido. Podia morrer ali, com ele perto de mim. Olhei-o durante algum tempo, e depois lhe dei um beijo na bochecha. - Era pra ter sido diferente? Voltei meu olhar para o chão, senti meu coração se quebrando em partes pequenas e frágeis. Ele não disse nenhuma palavra. Não sei se queria ouvir o que ele diria, se seria capaz disso naquele momento, as lágrimas não me deixariam dizer que não era aquilo que eu esperava. Só consegui forçar um sorriso e enxugar as lagrimas que escorreram próximas aos meus lábios. Pareci uma tola em perguntar o que sabia. Dizem que o espaço entre duas fotos felizes são algumas lágrimas. Tivemos lágrimas demais. Olhei o relógio, quase a hora de ir, não me importava mais. Só queria passar aquele tempo ali, com ele.
-Conheço um lugar melhor, vamos? Por fim ele disse alguma coisa. Fiquei sem ação, não esperava aquilo.
- Vamos. - Disse eu, com ar de duvida... - Mas, aonde?
-Relaaaaaaaaaaaaaaaaaxa! Confia mais em mim não? - disse, com o mesmo sorriso de antes. A mão que estava na minha nuca desceu para o ombro, e ele começou a guiar-me para fora dali. -Não se importa se formos andando né?
- Se não for longe, podemos ir andando, eu devo confiar?
Olhei em seus olhos que brilhavam com um olhar extremamente curioso.
-Se não confiasse, não estaríamos a caminho. - Ele riu.
Andei em silencio, eu não tinha o que dizer, também não sabia pra onde estava indo. Só queria ir pra algum lugar onde eu falasse por mim, não pelas minhas lembranças. Toda aquela área tinha algo do nosso passado junto, era nosso jardim, nosso caminho pra casa. Olhei aos redores como se procurasse algo familiar, onde ele estava me levando? Não pude hesitar e soltei ao vento:
- pra onde esta me levando?
- Pra algum lugar que eu não sei onde é, onde só exista eu e você. Não conheço nenhum...
Já não sabia se queria mesmo conversar com ele, ou apenas caminhar com ele perto de mim. Parei de andar, desvencilhei nossas mãos, virei pro lado e encarei o céu.
- Só precisava de algo pra realmente querer você de novo. Passou tanto tempo. Não sei mais se é saudade ou costume pensar em você. - Ouvi ele dizer.
Ele virou-se para mim e me encarou novamente. Logo depois, ele se sentou no chão. E ficou me encarando, acho que estava esperando uma resposta. Pensei cuidadosamente, qualquer coisa que dissesse agora, iria mudar minha vida. Olhei a minha volta, me sentei ao seu lado. Falhou-me a fala, não consegui dizer o que queria. Queria dizer a ele o tamanho da falta que ele me fazia, a imensa saudade que eu sentia e todas as noites de sono que perdi por despertar na madrugada pensando nele. Fiz um silencio que irritou a mim e tenho certeza que a ele também. O silêncio torturou o meu corpo. Engoli seco.
-Desculpe se tomei seu tempo, mas te ver assim, do nada, foi meio que... - Ele começou a dizer, apesar de nunca ter terminado essa frase. - Mas é bom saber que você ta bem. Quer que eu te deixe no metrô?
Queria ter forças o suficiente para fazer o que eu tive vontade. Eu tinha vontade de senti-lo novamente, de tê-lo novamente pra mim, mas eu era fraca, e aquele momento só me fez me sentir pior.
- Não, tudo bem, eu sigo a pé. Não to morando tão longe daqui.
Segui dando passos longos e demorados, queira guardar aquele instante pra mim, aquela fração de segundos. Fiquei olhando aquela cena. Ele ficando distante de mim. Parecia que nosso sentimento tinha virado uma imagem, e esta estava diante meus olhos. Quis gritar, mas não tive voz. Tentei correr, meus pés não se moveram. Fechei os olhos. Desejei do fundo do meu coração, que quando os abrisse, ele estaria ali, olhando pra mim com a cara que fazia quando me acordava cedo pra tirar fotos. Minha vontade era permanecer ali, com ele, e não perdê-lo mais. Meus passos diminuíram, até que pararam. Todas aquelas vozes ao redor me assustaram, e não tive outra reação a não ser, dar meia volta e correr para seus braços imóveis.
- Eu tenho medo.
Disse tão baixo que nem eu fui capaz de me ouvir. Perdi-me em pensamentos, não quis abrir os olhos e não vê-lo mais. Um frio me bateu, não sei dizer se foi solidão ou o vento. Tremi. Então gritei, gritei e cada vez mais alto a dor se manifestava dentro de mim. Ali, com o rosto enfiado em seu peito e gritando. Quem era eu? O que era eu, sem ele?
- Você não precisa se sentir assim... - Ele me disse.
Colocou a mão no meu queixo e levantou minha cabeça. - Eu ainda te amo. Sempre te amei...
E ali, no meio daquele parque cheio de pessoas, ele me beijou.
Eu me cansei de olhar a paisagem morta que a janela mostrava, encostei-me na parede cansado demias para continuar discutindo com ela.
Após alguns minutos ela sentou-se ao meu lado, cabisbaixa e calada, e encostou a cabeça no meu ombro.
"Por favor, não faça isso" - Me doía vê-la assim.
"Eu não estou fazendo nada" - Ela disse quase em um sussurro.
"Sim, você está, Mas por favor, entanda, eu nunca poderei retribuir."
Ela passou os braços pelo meu pescoço e uma lágrima gelada caiu em meu ombro.
Por impulso eu a abracei o mais forte que eu pude, esquecendo de todas as coisas a minha volta. Como eu sentiria falta dela, de como ela sempre sorri quando me vê. Sem saber quanto tempo havia se passado eu me separei dela e desci as escadas correndo. Uma hora ou outra ela viria atrás de mim, eu sabia, mas precisava de alguns segundas de solidão.
Alcancei o pequeno lago atrás da sacada e joguei ali cada lágrima que um dia havia derramado por ela. Mãos pequenas me abraçaram pelas cosas e senti minha blusa ficar gelada com as lágrimas dela. Uma angustia sem tamanho me atingiu e meus olhos arderam.
"Eu te amo" - Ela disse quase inaudivelmente - "Eu sempre te amei. Era isso que você queria que eu dissesse? É isso que é necessário para que você não vá? Por favor, fique. Sem você, esse lugar não significa mais nada pra mim"
Eu fechei os olhos e me afastei um pouco dela.
"Me desculpe... Adeus"
E então eu andei sem olhar pra trás, pois seria a pior coisa do mundo vê-la daquele jeito por minha causa.
Seis horas da manhã eu levantei, olhei para a mesinha ao lado da minha cama e lá estava a minha máscara. Não a coloquei logo em seguida, hoje resolvi sair um pouco da rotina, tomei banho, café da manhã e a máscara continuava lá. Sentei no sofá da sala e fiquei imóvel, passaram mil coisas pela minha cabeça e de novo aquelas minhas malditas perguntas sem respostas. Tinha que sair, trabalhar, estudar, tinha que colocar aquela máscara idiota, por que será que me prendi tanto a ela? Duas faces, uma escondida, uma que só eu posso ver, uma que só eu conheço. Você já teve a sensação que ninguém te conhece de verdade? Eu a tenho a todo o momento, e depois de um tempo ela deixou de ser uma sensação e passou a ser uma verdade. Viver p'ra ajudar quem precisa, p'ra fazer os outros sorrirem, p'ra fazer papeis dos quais não sei se sou capaz ou boa o suficiente para fazer, minha vida é quase uma escola de teatro, e eu sempre disse "um dia você ouve e no outro é ouvido", parece que o meu dia de ser ouvida demora cada vez mais ou simplesmente não querem me ouvir, e eu estou gritando bem alto que quero tirar essa maldita máscara que faz parecer que está tudo bem quando não está, eu quero tirar essa maldita máscara que esconde que eu sinto falta do passado, eu quero tirar essa maldita máscara...
Engraçado porque nunca gostei de muitas pessoas, mas as vezes toda essa minha liberdade me sufoca, as vezes eu fico cheia de estar vazia. Maldita máscara que insiste em me deixar só...
Só mais um conto alheio para preencher lacunas.
O dia estava nublado, ventando, parecia que viria um temporal em breve. Andei de um lado para o outro procurando algo para fazer, não achei. Resolvi sair e ir até uma cafeteria onde eu costumava passar as tardes há uns três anos atrás, não sabia se ela ainda estava lá e quando a vi fiquei um pouco feliz por saber que nem tudo tinha sido arrancado de mim. Pedi um café expresso e me sentei perto da janela, fiquei sentindo o vento bater no meu rosto e nos meus cabelos. O café chegou, dei um gole e me coloquei a pensar sobre a vida, acho que meu problema é pensar demais. Me lembrei do passado, tenho saudade daqueles tempos, das boas companhias, dos bons romances, da boa música, eu me divertia bastante naquela época, hoje em dia não mais; engraçado como todos acham que o antes foi melhor que o agora -eu sou mestra em pensar essas coisas. Pedi outro café, e abri minha bolsa, vi bem no fundo meu caderninho velho, costumava colar fotos e escrever textos nele há muito tempo atrás então o abri. Primeira página, segunda, terceira... comecei a me lembrar de bons momentos, de ruins também, comecei a sorrir apesar disso, o café chegou, bebi demoradamente e continuei folheando. Achei um saquinho preto muito bem fechado com algo dentro que não sei o que era, parecia se movimentar, parecia sufocado, coloquei o saquinho no bolso do meu casaco, dei outro gole no café, peguei minhas coisas e fui embora. O temporal parecia demorar e eu esperava por ele, já não havia mais o que piorar então eu estava tranqüila. Avistei uma praça vazia, me sentei em um dos bancos inutilizados dela e coloquei as mãos no bolso, notei que o saquinho preto estava lá, o tirei do bolso e fiquei segurando, olhando, totalmente imóvel, quase não piscava. Senti aquele velho vazio que tinha se tornado normal depois de dois anos, criei coragem e abri o saquinho, estava com os olhos fechados, peguei o que estava dentro dele, segurei firme e abri os olhos. Quando olhei e vi ali meu coração, pequeno, batendo devagar, morrendo sufocado por mim mesma aos poucos, descobri o que era esse vazio, como eu pude me esquecer do meu coração? Eu o deixei preso no passado e parece que por isso eu sempre me sentia vazia, por isso eu sempre me magoava comigo mesma. O segurei mais firme ainda e sorri, me senti cheia novamente, e foi a melhor sensação que eu tive em anos. Parecia que o temporal não iria mais chegar, de repente o sol apareceu...no meio de tanta vaga impossibilidade, em um dia nublado, o sol apareceu. Por fim, na última página do meu caderninho tinha uma mensagem:
"A vida é difícil,
Mas comparada a que outra, se só temos a oportunidade de viver apenas uma vez?"
reflita...
queria saber namorar,queria saber demonstrar,queria não viver em um mundo virtual,queria conhecer gente nova,esquecer o presente,queria fazer alguém se apaixonar por mim,alguém que eu realmente goste,queria ter um carro,queria sair dirigindo pelo mundo,queria salvar os animais do planeta e fazer todos virarem vegetarianos e criarem vacas e porcos no quintal,queria ter um emprego que eu não precisasse trabalhar muito e ganhasse bastante,queria uma máquina do tempo,queria não ter pêlos nas pernas,queria tocar uma estrela,queria voar bem alto assim como um pássaro,queria entender o que se passa na cabeça das pessoas,queria prever o futuro,queria viver 1 mês em um iglu no alaska esquiando e vivendo com ursos polares,queria que meu cabelo crescesse sem eu precisar gastar dinheiro com ele,queria dormir tranquilamente todas as noites,queria escrever uma música junto com a Otsuka Ai,queria fazer uma regressão saber quem eu fui na vida passada,mas são só vontades,queria! queria! queria! e queria! eu queria tanta coisa que nem sei quanto tempo demoraria pra escrever aqui.