Nunca pensei que eu seria tão violenta, que puxaria a cortina do banheiro tão violentamente, que calaria teus últimos gritos com as duas mãos, que te abraçaria molhada e ensaguentada, com o chuveiro ligado sobre nós, acariciando de leve seus cabelos e seu pescoço com sangue e água.
Não achei que deixaria suas ultimas lágrimas me atingirem assim.
Não achei que elas se misturariam as minhas.
Não sabia que tinha coragem de arrastar seu corpo por todos os cômodos da casa, deixando partes suas por todo canto, pra me lembrar de você depois.
Te contando a história da sua vida sussurradamente.
Não imaginei que agiria como um psicopata; matando você, fazendo coisas incomuns e depois trancando a casa e indo embora como se ela estivesse vazia.
Não pensei que me mataria um dia.
Nem que esse dia estaria tão próximo assim.
Muito menos que já tivesse acontecido, e eu nem tivesse notado.
Meu corpo fica tão mais bonito assim, visto daqui de onde eu estou.
De fora dele, observando-o roxear, sentindo-o endurecer ainda encharcado com um sangue de cor bonita.
De longe, fugindo daqui covardemente, como o lixo que eu sempre fui.
Sonhando desde pequena em ser qualquer coisa, menos o que eu estava sendo.
